QUASE AURORA : ELA

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ELA

ilustração

Ela não é tão alta e nem tão baixa, ouso dizer que ficou no meio do caminho, mas isso é bom, ser essa pessoa mediana, ao menos ela acha que é, mesmo querendo ser um centímetro mais alta pra que sua altura terminasse em cinco como o dia e mês de seu aniversário.

Ela nasceu com cabelo preto, todo arrepiado e liso, mas foi crescendo e os fios ganharam tons dourados e as pontas se transformaram em caracóis. Depois de um tempo ele ficou como as ondas do mar, um caos e ela estava sempre mudando, algumas vezes partindo ele de um lado, outras vezes no meio, algumas vezes tentando deixa-lo cacheado, outras vezes assumindo o liso, mas a cor e tamanho estão sempre em constante mudança.

Ela não gosta muito do corpo que tem, apesar da maioria das pessoas dizerem que ela tem um corpo bonito. Sempre tem uma coisa pra mudar e o nariz tá no topo da lista. Queria ele mais fininho como o da mãe, mas tem quem ache um charme o nariz que ela tanto reclama.

O que mais ama em si são as coisas que não chamam atenção de ninguém, o formado das unhas, as mãos que carregam arranhões da gata que não consegue viver sem, as poucas pintas espalhadas pelo corpo e até as orelhas que ouviram segredos demais, histórias demais.

Ela não vê muita graça em si nem muita beleza, apesar de fazer muito esforço para enxergar o que tanto falam, mas lá no fundo ela se ama e se ama muito. Tem orgulho de quem é, da descendência indígena mesmo não conhecendo bem. Ela sabe que Deus enxerga beleza em cada uma das suas criações e que ela é obra de arte dele.

Tem muitos altos e baixos, mas mesmo em meio a dor consegue enxergar beleza na vida e isso se reflete no sorriso que os olhos castanhos conseguem expressar. Ela sabe que há poesia no olhar e faz questão de deixar transbordar sempre que eles precisam.

Ela anda de um jeito engraçado e a mãe sempre quer mudar isso. Ela sabe que precisa ter postura, caminhar olhando para o alto e não o chão, mas talvez essa timidez seja um charme que nem ela entende.

Se pedissem pra que ela se descrevesse, com palavras ditas não conseguiria, mas com palavras escritas se abre, se poetisa, se torna vulnerável e se permite ver de um jeito que diante do espelho não consegue. Talvez o segredo seja isso, parar de olhar pro espelho e mais para dentro de si.




4 comentários:

  1. Uau, sem palavras para esse texto. Ela é ela, do jeito dela e por isso é tão extraordinária!

    www.kailagarcia.com

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  2. Eu achei esse texto maravilhoso e quero muito apertar "Ela" <3 <3

    p.s.: participe sim do 100 lugares em 1 ano!

    Com amor, ♥ Bruna Morgan

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    Respostas
    1. Esse texto foi inspirado no seu post “642 coisas sobre as quais escrever” 💛

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